Como ser imperfeito ?
Uma exploração prática sobre a vulnerabilidade — e sobre o que ela deixa de ser quando vira mercadoria, técnica ou performance
Mateus Silva Feitosa
8/22/20268 min read


Incontestavelmente, toda abertura emocional, num conjunto por uma unidade, possui critérios implícitos, indiscerníveis tanto do agente quanto de seu grupo e estado, que desencadeiam uma socialização em fases. Mas o que mais me perturba não são os critérios subconscientes e grupais, mas sim os conscientes, situacionais, ambientais e culturais.
O que há nesses? Quem pode os definir? Há normativa para isso? Como acontece a seleção de relações e que vantagem há em selecionar e, muitas vezes, segregar ou marginalizar?
Essas perguntas importam porque nenhuma abertura acontece fora de uma situação. A mesma frase pode ser acolhimento numa relação e humilhação em outra. O mesmo silêncio pode ser prudência em determinado ambiente e abandono em outro. A mesma exposição que fortalece um indivíduo pode fazer outro recuar, sobretudo quando encontra vergonha, estigma ou ausência de apoio. A vulnerabilidade, portanto, não pode ser avaliada apenas pelo gesto de quem se abre; é preciso considerar a capacidade de quem recebe.
Nota-se evidente que a exposição de alguém, por si mesma, não o faz crescer, sair, entrar. Nunca estar na zona de conforto não é o ponto. Isso é temporário e relativo aos parâmetros de sucesso de cada um. Desse modo, não é a constante abertura que cria laços fortes, e um retorno contínuo do outro ao qual se abriu quase nunca acontece. E, mesmo quando há retorno contínuo, o que te garante que é o exato retorno ao que foi enviado?
A superexposição é asquerosa e desnecessária. Muitas vezes, um sorriso sincero já é o suficiente. Só um. Não tente exagerar com dois desses.
O segredo não é se envergonhar da vulnerabilidade, ou mesmo reprimi-la, mas saber absorver e ser absorvido na medida em que o outro exige de si e de você. Há uma espécie de reciprocidade silenciosa nessa medida: não se trata de oferecer tudo, mas de reconhecer o que a relação comporta, o que o outro consegue sustentar e aquilo que você próprio consegue suportar depois de ter se revelado.
Quando se é vulnerável, os vínculos alcançados com a honestidade devida numa abertura ponderada afrouxam as correntes duma autossuficiência de finalidades ilusórias, vaidosa a ensinar Narciso, e que, como este, ignora a si para se preservar na presença do que não é familiar, belo ou conhecido. A vulnerabilidade pode então desempenhar uma função que a autossuficiência jamais conseguiria cumprir sozinha: permitir que o indivíduo seja reconhecido sem precisar transformar o reconhecimento em prova de valor.


Deve-se muito à vulnerabilidade. Temer o mundo e reconhecer sua grandeza é um ato de humildade fundamental para com o exercício da existência, que constantemente se inclina mais contra as aspirações que se deseja do que em favor das situações que nos favorecem e que se encaixam e se justificam numa narração que nos interessa manter linear. E nunca é. Em verdade, afirmo: é só a vida lutando por si e contra si ao mesmo tempo, sem que haja uma distância evidente entre ambas, sendo isso, talvez, a prática de uma manutenção para salvar-se.
Assim é evidente, tal como tudo no ambiente social de projeções vigente, percepções filtradas e objeção massificada à experiência do que nos deveria ser excelente. A vulnerabilidade transmuta-se num dos vários estigmas da autoajuda e da comercialização da inteligência emocional, no formato de pacotes e programas socioeducacionais independentes de baixíssima qualidade, tipo um curso de vender cursos, ou como aprender a enganar e ser enganado de seis formas diferentes em apenas sete dias.
Há, contudo, uma injustiça em reduzir a vulnerabilidade àquilo que dela foi feito comercialmente. Porque, antes de ser técnica, ela é condição. Antes de ser conselho, é experiência. Há alguma coisa genuinamente valiosa na capacidade de reconhecer medo, limite, necessidade e imperfeição sem imediatamente convertê-los em vergonha. Relações construídas sobre autenticidade e vulnerabilidade apoiada podem favorecer crescimento justamente porque permitem ao indivíduo abandonar, ainda que provisoriamente, a obrigação de parecer inteiro quando não está. Não é a exposição que produz esse efeito. É a possibilidade de que aquilo que foi exposto seja recebido sem estigma, sem punição e sem a necessidade de devolução imediata.
É nesse ponto que a vulnerabilidade deixa de ser espetáculo e se torna vínculo.


Um estudo transversal com 7.957 participantes da linha de base, entre 2015 e 2016, do ELSI-Brasil encontrou uma razão de prevalência de 4,49 para a associação entre solidão intensa e depressão, além de identificar morar sozinho como um forte elemento relacionado à solidão, com razão de prevalência de 2,44. Claro que, num estudo dessa envergadura, a resposta para as motivações foi negligenciada muito em função de sua natureza estatística e não tão sociológica, por mais que os dados sejam quantitativamente sociais, e até mesmo socioemocionais. Trata-se de um estudo transversal, portanto, de associação, não de causalidade.
É justamente nessa parte, que se refere ao conteúdo motivacional, que será trabalhada a reflexão do presente artigo. Até que ponto a vulnerabilidade causa uma necessidade obsessiva de retornar a si pelo contraste da tua situação mediante o contexto da situação de outrem?
E, para responder a isso, eu preciso que você saia da mercantilização do conceito de vulnerabilidade formulado e capitalizado pela obra A Coragem de Ser Imperfeito e suas variantes, antes que essa, ou essas obras, fossem compreendidas em sua completude. Logo, definiremos a vulnerabilidade como: o ato de ser vulnerável é enfrentar tudo aquilo que te é muito cru, sem cor, sem gosto, simultaneamente novo sem aparentar grande novidade, que não te é muito palpável, nem inteligível, mas que pode ser apreendido e assim absorvido; tudo que só pode ser experienciado por um ser imperfeito.
"Ser vulnerável é enfrentar tudo aquilo que te é muito cru, sem cor, sem gosto — tudo que só pode ser experienciado por um ser imperfeito."
Há, portanto, uma diferença fundamental entre vulnerabilidade e exposição. A primeira pode ser uma condição de contato com aquilo que ainda não dominamos; a segunda é apenas um comportamento. Expor-se não significa necessariamente confrontar-se. Mostrar-se não significa necessariamente compreender-se. Falar muito não significa ter sido ouvido. E ser ouvido também não significa ter sido compreendido.
O problema principal da vulnerabilidade é que a insegurança absorvida e direcionada ao próprio indivíduo, numa autorreflexão interminável, negligencia toda a estrutura que potencializa e proporciona essa insegurança e na qual o sujeito vive e se adapta. E é nisso que baseio a reflexão deste artigo, que se lê e absorve na finalidade de entender-se os limiares da vulnerabilidade pela imperfeição.


Talvez, por isso, não devamos terminar perguntando se alguém deve ou não ser vulnerável. A pergunta mais honesta é outra: qual abertura é coerente com meus limites? Qual vínculo tem condição real de recebê-la? O que existe, concretamente, do outro lado dessa exposição? E o que estou tentando produzir ao me abrir: encontro, alívio, reconhecimento, transformação ou apenas a confirmação de uma imagem de mim mesmo?
Ser vulnerável não é entregar-se indiscriminadamente ao mundo. Tampouco é esconder-se dele para preservar uma imagem coerente de si.
É reconhecer que existem coisas que nos atravessam antes que possamos compreendê-las, pessoas diante das quais podemos nos mostrar sem precisar representar, e estruturas que não desaparecerão simplesmente porque aprendemos a falar melhor sobre nossos sentimentos.
Ser vulnerável, nesse sentido, não é fracassar em ser autossuficiente.
É reconhecer que talvez nunca tenhamos sido.
Sobre as fontes citadas neste artigo
O dado estatístico citado é do estudo Loneliness and its association with sociodemographic and health indicators in Brazilian adults and older adults: ELSI-Brazil (Sandy Júnior, Borim & Neri, 2023), publicado em Cadernos de Saúde Pública, com base na linha de base 2015–2016 do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros. A discussão sobre vulnerabilidade e vergonha em relações de apoio dialoga com o estudo qualitativo de Sapiro & Ramirez Quiroz (2022), publicado no Journal of Child and Family Studies. A crítica estrutural ao discurso da vulnerabilidade como autoaperfeiçoamento se apoia na análise de Vanessa Ciccone (2020/2021), publicada em Feminist Media Studies, sobre a popularização da obra de Brené Brown.


Ainda assim, existe a relação paradoxal de exigir de si vulnerabilidade de maneira tão persecutória ao ponto de criar-se uma vulnerabilidade perfeccionista, o que notoriamente vai de encontro ao nosso objetivo para exterminá-lo e não agir em favor dele.
A vulnerabilidade perfeccionista é justamente a perversão do conceito: a pessoa que antes precisava deixar de parecer perfeita agora precisa ser perfeitamente vulnerável. Precisa saber nomear os próprios sentimentos, comunicar-se corretamente, acolher a própria fragilidade, demonstrá-la na medida adequada, construir relações saudáveis e, no fim, ainda olhar para si mesma e concluir que está fazendo tudo isso corretamente.
Aquilo que deveria romper uma obrigação transforma-se em outra.
Assim, a configuração da vulnerabilidade é contraditória na sua aplicação quando esta visa melhorar-se não para dar o melhor de si no todo a que se refere, mas para que a pessoa que está em posse de si possa se olhar no espelho e ver conteúdo que agrade, e não só ecos de alguma coisa. A vulnerabilidade, quando convertida em performance, já não está necessariamente interessada no mundo. Está interessada na imagem que o sujeito produz de si enquanto supostamente enfrenta o mundo.
E aqui reaparece a crítica estrutural. O discurso da vulnerabilidade pode produzir benefício real ao ampliar nosso vocabulário emocional e combater uma autossuficiência rígida; mas pode também transformar uma insegurança social em tarefa individual de autoaperfeiçoamento. A pergunta deixa de ser "que estrutura produz essa insegurança?" e passa a ser "o que há de errado comigo por ainda não saber lidar com ela?". A precariedade encontra, assim, uma linguagem terapêutica conveniente para se tornar responsabilidade privada. A própria crítica acadêmica ao discurso popular da vulnerabilidade chama atenção para esse deslocamento: não basta perguntar se determinada prática funciona, mas por que funciona e para quem funciona melhor.
"A pergunta deixa de ser 'que estrutura produz essa insegurança?' e passa a ser 'o que há de errado comigo?'"
Um dos grandes problemas do tratamento da psique está em saber ou não se a cura disponível alcançará o sujeito pelo fato de este necessitar de cura estando no papel social que o levou a estar doente.
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