Qual o serviço da crença?!
“O serviço da (crença) baseia-se na esperança da análise da razão anterior do que será feito da capacidade do que o ser e do que o ente pode conceber em relação a dada situação em que há o vínculo entre Agente e Objeto”.
Mateus S. Feitosa
11/1/20267 min read


O Serviço da Crença como Noção do Sujeito Consciente
O serviço da crença existe como noção para o sujeito que a põe em uso de suas iniciativas conscientes e consequentes, a gerar descobertas de quaisquer naturezas, o Ser assim absorve a complexidade máxima do que examina, a esmiuçar suas partes e a desfazer-se dos detalhes da própria, define como aquilo que é a coisa e a integrá-la a seu referido sistema.
Ou seja, a crença não é um objeto que se encontra pronto na Realidade, é um serviço que o Ser presta a si mesmo enquanto examina o que o cerca, e o sujeito que investiga uma situação qualquer (um vínculo, uma perda, uma descoberta) precisa, antes de reunir todas as informações, confiar que a análise que inicia é capaz de alcançar alguma coisa, a fazer dessa confiança, que naturalmente antecede o método, aquilo que põe a razão em movimento. Em outras palavras, não se examina aquilo em que não se espera encontrar algo examinável. Sem a espera, a razão não teria por onde começar.
Não é a crença que fornece o conteúdo da descoberta, é ela que sustenta o ato de buscá-la, pois o Observador que se lança ao desconhecido carrega consigo uma expectativa (quase sempre implícita) de que o sistema em que existe é inteligível, de que há ordem a ser descrita e de que a sua Consciência, com as virtudes que lhe são próprias, dispõe das ferramentas para tal descrição, algo semelhante ao viajante que confia no chão antes de comprovar a firmeza de cada passo, desse modo o Ser opera primeiro pela espera e só depois pela confirmação, e a crença funciona como o alicerce provisório de uma construção que ainda não foi concluída. Provisório, mas necessário.
O Fato como Hábito Bem Pensado
Logo se vê que o fundamento da espera advém da esperança do que passado ainda é fato e fato instituído pelo “olhar” do homem racional que “enxerga” o funcionamento, pelo que há entre seu existir e o operar de todas as coisas que permeiam o seu existir, desse modo, do pressuposto mais indemonstrável surgi o vívido fato do qual se gaba toda a humanidade ter conseguido, esquecendo-se dos detalhes, as malditas impossibilidades tão ínfimas que quando executadas, devido à sua furtividade e “deselegância”, beiram o milagre do divino e o humor de deus, então a crença enuncia que toda definição de fato seja “Um hábito muito bem pensado para a vivência do Ser” e não “A descoberta essencialmente voltada para a descrição do comportamento das partes e/ou da totalidade de um sistema”.
Enquanto espera o ser pela certeza, usa-se o hábito na Jornada pelo suprir do perfeccionismo inerente ao Homem, o referente a “Verdade Absoluta” do lugar em que preza pelo sobreviver à mentira do próximo dia.
Esse hábito, entretanto, tem uma natureza dupla. Enquanto hábito, ele economiza o esforço da Consciência, e o homem que repete diariamente um gesto não precisa redescobrir a cada manhã por que o repete, porém, enquanto fundamento, oculta a pergunta pelo seu próprio télos (o para quê do que se repete), ou seja, o hábito conserva o que foi descoberto e, no mesmo movimento, impede que o já descoberto seja revisitado, a configurar um ganho e uma perda no mesmo gesto.
Daí a ironia presente na “Verdade Absoluta” que o Ser reivindica: ela é buscada com o rigor de quem procura o definitivo, porém utilizada com a leveza de quem precisa somente chegar ao dia seguinte. A mentira do próximo dia (a incerteza que a manhã sempre traz) não é vencida pela Verdade, é amortecida pela crença de que o que funcionou ontem continuará a funcionar, e em outras palavras, a crença não responde à pergunta sobre o que é verdadeiro, responde à pergunta sobre o que é suportável esperar.
Crença ou Descoberta?!
Existem duas formas de chamar algo de fato. A primeira parte do Depoimento Oficial da Existência: observa-se, descreve-se em uma Linguagem inteligível e reproduz-se em campo prático, de modo que o fato seja o resultado de um processo que qualquer Observador honesto possa refazer, e a segunda parte do costume: o que se repetiu o suficiente para parecer indiscutível passa a ocupar o lugar do que foi comprovado. A primeira é descoberta, a segunda é hábito bem pensado, e a diferença entre ambas nem sempre se deixa ver, até porque o hábito bem pensado costuma ser, de fato, bem pensado. Parecem iguais, e não são.
Não se trata, contudo, de condenar a crença como erro. Se toda descoberta depende de uma espera anterior, então negar a crença seria negar o ponto de partida da própria Razão, mas aceitá-la sem exame seria fazer do ponto de partida a linha de chegada, algo semelhante a andar em círculos achando que se está andando em linha reta. A tensão permanece: a crença é indispensável para iniciar e perigosa quando dispensa a verificação. Qual critério, então, se pode oferecer ao leitor?! A honestidade (a sinceridade perante o que realmente acontece na Realidade), de modo que toda crença deve ser capaz de dizer em que condições deixaria de ser mantida.
O Ser, os Entes e o Sistema
Observa-se o Ser como produto do conjunto de entes ordenados e singulares por natureza. O ser molda o sistema em que vive pela manipulação das informações já vigentes e os entes são as partes mais simples da Unidade Complexa que é o Universo (ou o que se chama por sistema), assim os entes formam o ambiente e “preparam o palco para a atuação do Ser”.
Sendo o Ser produto do conjunto de entes, naturalmente ele jamais comparece à Realidade sozinho, pois cada ente (a pedra, a palavra, a instituição, o outro ser) compõe o arcabouço a partir do qual o Ser define o que lhe é possível fazer. É nesse sentido que se diz que os entes preparam o palco, eles não determinam a atuação, mas delimitam o espaço em que ela pode acontecer, seria semelhante a um ator que escolhe livremente cada gesto, porém não escolhe as dimensões do tablado.
A crença ocupa aqui lugar singular. Como o Ser molda o sistema pela manipulação das informações já vigentes, aquilo em que ele crê interfere em quais informações são tomadas por relevantes e em quais são deixadas de lado, e duas pessoas diante do mesmo palco veem cenários distintos, não porque a Realidade seja outra (a informação, fundamentalmente, está organizada de modo harmônico e independe do olhar), mas porque a expectativa de cada uma recorta a parte do todo que será descrita. Ou seja, a crença não altera o sistema fechado, altera o fragmento dele que o Observador consegue enxergar.
O Agente e o Objeto
O agente é todo ser e/ou ente que influencia o estado em que obviamente se está o objeto, que diante dessa definição e nesses “casos gerais” é um ente passivo dentro daquela situação.
Essa definição, à primeira vista fria, tem consequências. Dizer que o objeto é um ente passivo “nos casos gerais” é admitir que há casos particulares em que a passividade não vale (aquele em que o objeto, sendo também um Ser, reage ao agente e, nessa reação, torna-se ele mesmo agente), de modo que a relação entre Agente e Objeto não é, portanto, uma estrutura fixa (como uma planta de arquitetura), mas uma posição ocupada em dada situação, e que pode ser trocada.
Aplicada à crença, a distinção esclarece o seguinte: quem crê é, diante da situação examinada, agente, e a coisa examinada é o objeto. Contudo, a crença que o Ser adotou ontem (fruto de hábito, de convivência, de imposições do meio) age agora sobre ele, a fazer com que o sujeito, que se julgava agente, descubra-se objeto de uma influência anterior. Quem examina é examinado pelo que já acredita, e esse duplo movimento não se resolve por decreto.
A Crença Diante da Verdade
Resta a pergunta que o texto inteiro contorna: a crença serve a quê?! Serve a três coisas, à ação, porque permite que o Ser aja antes de saber, ao consolo, porque amortece a incerteza, e à descoberta, porque lhe fornece a espera que a antecede. Mas toda verdade tem sentido, e nem todo sentido é dotado de verdade, de modo que um serviço prestado ao sentido não é, por si, um serviço prestado à Verdade.
É possível, então, que a crença seja um bom servidor e um mau soberano, útil enquanto submetida ao exame, danosa quando o dispensa. Essa formulação, no entanto, ainda carrega um risco (o de transformar uma tensão real em fórmula confortável). Se a crença é necessária ao início da busca e, ao mesmo tempo, a principal ameaça ao seu fim, não há como afirmar que o Ser tenha resolvido o problema, há somente como afirmar que o reconhece. Reconhecer não é resolver, mas já é não se deixar conduzir cegamente pelo hábito.
Fica, assim, a pergunta que dá título ao texto, devolvida ao leitor sem resposta pronta: qual é o serviço da crença quando já se sabe que ela serve tanto à descoberta quanto ao seu adiamento?! Talvez a única resposta honesta seja a que o próprio Ser, ao examinar a sua espera, consiga sustentar diante de si mesmo.
Sobre o Autor
Mateus S. Feitosa é Estudante Ávido e Entusiasta da Vida Solo e Autonomia Prática, com uma sólida trajetória de vivência, pesquisa e estudo prático sobre Viver Sozinho, Organização Residencial, Finanças para Autonomia, Rotinas de Independência, Gestão Doméstica, Minimalismo e Bem-Estar Cotidiano.
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